Sobreviveremos a um oceano de microplásticos? | MARES LIMPOS #4

Estas são as vaquitas, uma espécie da família dos golfinhos que existe apenas no golfo da Califórnia Elas são os mamíferos marinhos mais raros de se encontrar na natureza Não só porque são tímidas, mas principalmente porque estão a beira da extinção

Acredita-se que hoje restam menos de 12 indivíduos na natureza Várias medidas já foram tomadas por ONGs, institutos de preservação e pelos governos mexicano e norte-americano Nada disso impediu que a população caísse drasticamente nos últimos anos, a ponto delas poderem ser declaradas extintas nos próximos meses A principal causa da morte das Vaquitas é a pesca predatória, ue visa não elas, mas uma outra espécie de peixe chamada totoaba, também típica da região e também ameaçada de extinção A busca cada vez maior pela bexiga da totoaba, super valorizada no mercado chinês, é apontada como a maior causa do risco de extinção dessas duas espécies

Esse é um exemplo dramático de como a vida marinha é ameaçada pela atividade humana E embora a pesca predatória seja por si só uma enorme ameaça, estudos mostram que existe um outro grande risco que a gente tá trazendo pros oceanos, um bem mais silencioso e quase invisível Milhões de pedacinhos de plástico do tamanho desses grãos de areia Muito desse plástico vem das redes de pesca que caçam as totoabas e matam as vaquitas Quando essas redes são abandonadas no mar, elas continuam matando milhares de animais que se enroscam nelas E depois elas se dissolvem e se transformam em microplástico, que se juntam com as mais de 8 milhões de toneladas de plástico que a gente joga anualmente nos oceanos

E daí é uma tragédia anunciada Nas primeiras pesquisas sobre o plástico, o que nós realmente notamos foram os grande plásticos, aqueles que você pode ver a olho nu, mas depois começamos a procurar em nosso laboratório plásticos menores que eram mais difíceis de ver e contamos mais de 34 mil pedaços de plástico Mais de 90% deles eram menores que um centímetro quadrado Então eu voltei para minha pesquisa e olhei para plásticos ainda menores do que isso, cerca de um milhão de vezes mais plástico do que estávamos contando Então, os microscópicos na verdade são os plásticos mais abundantes, são realmente muito pequenos

Esse aqui é o ORV Alguita, o barco do Captain Charles Moore Esse cara é o cara que primeiro identificou uma grande concentração de plásticos no norte do Oceano Pacífico E ele é o cara que me inspirou a criar o Menos 1 Lixo Na verdade, o Movimento Menos 1 Lixo foi criado para que menos plástico chegasse no oceano e não contribuísse com essa grande concentração Bem, a área que chamamos de Giro do Pacífico Norte é tão remota quanto possível da civilização humana em qualquer lugar da Terra Fica no meio do caminho entre o Havaí e a Califórnia Então, quando eu estava voltando de Honolulu em 1997, um ano único, porque teve o maior El Niño já registrado no Pacífico ele praticamente deixou a água plana desde o Havaí até o continente

Ficou completamente calmo, o que deu pra todo aquele plástico que estava lá a chance de flutuar para a superfície O giro é um fenômeno natural É como um enorme sistema que gira como um pião, causado pela rotação da Terra, ventos e correntes marítimas Então, na prática ele cria um enorme redemoinho no oceano, onde o plástico que vem da terra fica preso e concentrado Nós fizemos pesquisa de campo em 2010 com uma expedição em todo o Atlântico Sul, o Pacífico Sul, o Oceano Índico, a metade leste do Atlântico Norte e depois voltamos para o Pacífico Norte

E o que descobrimos é que isso é realmente um problema global Recentemente, outras expedições de pesquisa da equipe do Capitão Moore identificaram uma segunda grande concentração de plástico, dessa vez ao sul do Pacífico, entre a linha do Equador e o Chile O que significa que, o plástico está realmente em todos os lugares Quando fizemos nossa viagem pelo Giro do Atlântico Sul, indo do Rio de Janeiro até a Cidade do Cabo na África do Sul e depois indo da Namíbia de volta para o Uruguai, o que encontramos lá é bastante consistente com o que encontramos em outros giros Amostra, depois da amostra, depois da amostra, depois da amostra de um mês inteiro, que parece um punhado de fragmentos

Fragmentos quebrados de plásticos, misturados com a vida marinha, com plâncton krill e caravelas-portuguesas Quando levantamos nossa rede e analisamos o conteúdo das amostras, calculamos que havia seis quilos de plástico para cada quilo de plâncton na rede Ninguém mais poderia ignorar isso, nem mesmo as Conferências de Detritos Marinhos estavam focadas em plásticos na época Mas agora todos estão focados no plástico e o Interesse tem crescido exponencialmente Desde os anos 50, uma quantidade absurda de plásticos já foi produzida

Os cientistas estimam que essa quantidade é maior que 8,3 bilhões de toneladas fabricadas É tipo assim: Se todos os habitantes do planeta tivessem um carro e somassem o peso de todos esses carros, essa seria a quantidade de lixo que já foi produzida e que muitas vezes acaba nos oceanos E esse é um problema de escala global Eu tou aqui em San Diego, na Sexta Conferência Internacional de Lixo Marinho, onde ativistas, especialistas e ambientalistas discutem o que fazer pra endereçar esse problema 70% do lixo que tá nos oceanos, dos macrolixos que a gente consegue ver a olho nu, são redes de pesca fantasma Essas redes são redes que são abandonadas, perdidas ou descartadas nos oceanos

Têm muita relação com a pesca ilegal, então geralmente quando chega a fiscalização eles jogam as redes de pesca nos oceanos e por causa das correntes, essas redes de pesca são levadas pra todos os cantos do mundo E essas redes elas vão se quebrar e virar microplásticos Então essa rastreabilidade, se veio de uma rede de pesca ou não, não se tem muitos dados, mas a gente sabe que a rede se transforma em microplástico e que são mais de 640 mil toneladas de redes de pesca que são descartadas todos os anos Dá mais ou menos uma tonelada por minuto Quando pensamos em microplásticos, em muitos casos, eles podem ser fragmentos de plásticos de consumo maiores, mas eu acho que às vezes nós esquecemos os equipamentos que são perdidos involuntariamente no oceano eles continuam matando animais por um longo tempo e então, quando pensamos sobre o impacto do oceano, não podemos ignorar o equipamento de pesca como uma ameaça muito real ao oceano e aos animais que vivem lá

Globalmente, são mais de 136 mil baleias, golfinhos, focas, presos e estrangulados e mortos todos os anos por causa dessas redes de pesca Estima-se que de 10 a 15% das espécies são comerciáveis, são pegas pelas redes de pesca fantasma Então é um problema econômico também, porque a própria indústria pesqueira tá sendo impactada pelo resíduo que ela tá gerando Então já tem mais de 57% dos estoques pesqueiros que já tão explorados até o ponto que não dá pra pescar mais E um grande número também já tá sobre explorado e já não tá mais conseguindo nem se recuperar

Então a pesca tá entrando em colapso e a indústria pesqueira também tá contribuindo pra isso quando perde essas redes de pesca E eles vão num processo de degradação que vai se tornando microplástico, então entra na cadeia alimentar marinha e vem pra gente e tá na nossa mesa já Mesmo animais como baleias, que comem plâncton, podem ser realmente afetados Então, mesmo que esse plástico seja realmente minúsculo e você talvez não o veja, ele está afetando os menores animais na parte inferior da cadeia alimentar Porque o microplástico, quando quebrado, entra na teia alimentar em muitos pontos diferentes

Esses são os peixes lanterna, um dos principais alimentos do atum, do salmão, de algumas espécies de golfinhos e de baleias e diversos outros animais marinhos Eles são uma peça fundamental no ciclo de vida dos oceanos do mundo todo Os peixes lanterna por sua vez se alimentam de plâncton Mas isso o que você está vendo não é plâncton Isso é um microplástico, mas do tamanho certo para ser engolido pelos peixes lanterna, que os confundem por comida Além do BPA, que é um composto químico liberado pelo próprio plástico, cada pedacinho desses também acumula diversos outros poluentes encontrados nas águas dos oceanos: PCBs, DDTs e HAPs, produtos industriais que causam alterações hormonais, problemas cardíacos e de visão, mal-desenvolvimento fetal e principalmente câncer

Esses plásticos, eles se ligam a poluentes orgânicos persistentes, que são o que? São os restos da agroindústria São os agrotóxicos que acabam sendo levados pro mar e aí ficam ali flutuando Então a gente tá consumindo plástico, tá consumindo agrotóxico E esses produtos, quando eles entram no nosso sistema eles são disruptores endócrinos, então causam problemas no nosso sistema endócrino, são cancerígenos Então tem uma série de impactos na nossa saúde e que as pessoas não tem conhecimento

Então a gente precisa realmente informar o consumidor, informar as pessoas e as pessoas buscarem essa informação pra consumir as coisas de uma forma muito mais consciente e responsável Então a primeira coisa é se informar Identificar quais são as espécies que a gente pode consumir que tão menos ameaçadas, buscar sempre que possível produtos certificados, porque nesses mecanismos de certificação a gente sabe que a pesca não é ilegal, a gente sabe que tem critérios de sustentabilidade ali, então a chance de você tá consumindo um produto que tem impacto ambiental é muito menor A indústria pesqueira tem que também se tornar responsável pelas redes, então sempre que perder, reportar E quando for uma rede que não for mais usada, dar um destino correto já tem muita gente comprando esse material, porque muitas vezes é nylon, de altíssima qualidade, que pode ser reutilizado pra fazer novas redes ou então pra fazer uma série de outros produtos só que as pessoas não comunicam isso, porque ainda tem uma cultura de que aquilo é um subproduto, porque é feito de um lixo reciclado Então a gente tem que quebrar essa cultura, aquilo tem um valor agregado enorme e as empresas tem que falar isso e o consumidor tem que priorizar esse tipo de produto

Lembrando que a rede de pesca não é a única fonte de plástico no oceanos, por isso sempre, sempre, sempre que você puder diga não aos canudinhos, às sacolinhas, aos copinhos descartáveis Eu já falei isso, mas eu vou sempre repetir E o desafio dessa semana, pra você que assim como eu, quer manter os nossos mares mais limpos, é recolher lixo! Isso mesmo, e independe se você vive perto ou longe do mar O seu lixo, quando não é destinado de forma correta, acaba aqui Sobre isso eu falei no episódio 2, se você perdeu, tem o link aqui na descrição

Mas essa semana aproveita e recolhe cinco lixos diferentes no seu caminho Se o caminho for a praia, ou a beira de um rio, melhor ainda Aproveita e compartilha esse vídeo com os seus amigos, dá um like e se inscreve no canal, porque juntos somos mais fortes