Duas horas de caminhada. Toda semana, Raimunda, seu marido ou um dos seus filhos tinha que ir longe para catar lenha usada no fogão. Ano após ano, a distância ficava cada vez maior. O que para os moradores de Serrinha parecia ser só um incômodo revelava uma extensa degradação ambiental. A comunidade isolada, que vive da agricultura de subsistência e tem apenas uma escola, é uma mostra do que se repete em toda a Caatinga, único bioma totalmente brasileiro.
Dona Raimunda é uma das milhões de donas de casa desta região que preparava os alimentos em rústicos fogões a lenha. Em todo o Nordeste, é estimado um consumo diário de 6 toneladas de madeira. Sem uma gestão planejada do aproveitamento da biomassa, uma rica biodiversidade que envolve 320 espécies exclusivas de vegetais.
Mas sem uma visão ecológica, dona Raimunda voltava suas preocupações para outro problema bem mais claro: a grande incidência de gripe, infecções respiratórias, pneumonias e alergias. Tudo isto sendo resultado dela e seus filhos passarem horas expostos à fumaça produzida na queima da lenha. Queimaduras também eram comuns.
Isso mudou no final de 2006, graças a um projeto do IDER com o apoio da USAID Brasil, no Programa Energia Renovável e Desenvolvimento, e do Banco Mundial, através do Global Village Energy Partnership. Cem famílias, sendo trinta da comunidade de Serrinha, receberam fogões ecológicos, modelos eficientes dos fogões a lenha.
Construídos com a ajuda de trabalhadores locais, estes fogões tem a vantagem de queimarem a lenha de forma mais eficiente. Reduz-se o consumo, preserva-se o meio ambiente. A tecnologia também oferece uma chama limpa, com redução dos riscos de queimadura e eliminação da fumaça dentro da cozinha através de uma chaminé.
Dona Raimunda e sua família sentiram as melhoras de imediato. Acabaram as doenças respiratórias e até as panelas ficaram mais limpas, livres da fuligem. De tão feliz, ela aproveitou e mandou pintar a parede de branco, certa de que o seu novo fogão não expele fumaça como o anterior.
A caminhada para pegar lenha continua longa, mas agora acontece de apenas 12 em 12 dias, mostrando que o consumo de madeira caiu bastante. E já há uma visão de futuro. As famílias de Serrinha, e outras 70 beneficiadas em outras comunidades do semi-árido, participam agora de atividades de preservação ambiental. Com a saúde em dia, a meta agora é cuidar do planeta.

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