Fazendo a floresta valer mais em pé do que derrubada | Virgilio Viana | TEDxEncontrodasÁguas

Tradutor: Leonardo Silva Revisor: Ruy Lopes Pereira Me pediram pra falar sobre a valorização da floresta em pé, como fazer a floresta em pé valer mais do que derrubada E vou dar duas mensagens principais: a primeira é por que fazer isso e a segunda é como fazer isso

A primeira mensagem é que nós estamos perdendo a luta O desmatamento continua, mais ou menos 18% da Amazônia já se foi, e, apesar de ter diminuído a taxa de desmatamento, ela continua, ou seja, nós continuamos perdendo floresta Mais do que perder floresta, nós estamos botando fogo na nossa floresta Talvez Manaus tenha vivido isso de uma forma muito contundente nos últimos meses, no verão pronunciado que tivemos, com um nível de poluição do ar quatro vezes superior ao permitido pela Organização Mundial de Saúde Nós tivemos doenças respiratórias aqui de uma maneira já próxima a situações extremas de países como a China, que tem um nível altíssimo de poluição, e isso é uma realidade que, infelizmente, vai se agravar com o passar do tempo

Então, nós temos que fazer a floresta valer mais em pé do que derrubada pra evitar o desmatamento, diminuir as queimadas e manter uma grande provedora de serviços ambientais A Floresta Amazônica é essencial para o futuro do planeta, ela é essencial para o futuro da própria Amazônia, por muitas razões, mas talvez a mais simples seja olhando pra essa região como uma grande bomba d'água Isso aqui é uma imagem de Anavilhanas e que, aqui, está substituída por uma imagem de como a umidade entra pelo Oceano Atlântico, passa pela floresta, bate nos Andes e vai para o centro-sul da América do Sul O que abastece de água o sul da América do Sul são os jatos de baixa altitude que vêm da Amazônia Então, essa história de a floresta ser uma grande provedora de umidade é essencial para o nosso futuro comum

Essa animação do NOA, hora a hora, dia a dia e mês a mês, mostra uma imagem muito didática, o fluxo de vapor d'água no planeta Terra, em branco Aqui está a Amazônia, aqui está o Congo, e esse fluxo de vapor d'água depende, e muito, das nossas florestas Ou seja, manter a floresta é essencial Agora, manter essa floresta é um desafio que tem que considerar o capital humano Quem são as pessoas que vivem nessa floresta? Como é que está a situação delas? Esse é o mapa da pobreza brasileira

Quanto mais escuro, mais pobre A manchete: é a região das mais pobres do Brasil, do ponto de vista dos indicadores clássicos de pobreza E temos um problema seriíssimo: as populações que vivem no meio da floresta são as piores assistidas, do ponto de vista das políticas sociais As escolas da Amazônia Profunda têm, em média, 96 dias de aula, quando a legislação recomenda 200 Não apenas têm menos da metade, mas a aula é de baixa qualidade e, pior ainda, a aula é completamente dissociada da realidade

Então, nós temos um déficit de construção de capital humano altíssimo nessa região, e talvez as demonstrações de rua Essa é uma foto de 2013 que eu tirei no interior de São Paulo Talvez a mensagem mais clara seja esse pôster que a menina segurava Nós precisamos de políticas públicas mais eficientes Nós gastamos muito e temos pouco resultado Pra reverter esse quadro, nós precisamos, primeiro, entender a Amazônia, e a Amazônia, às vezes as pessoas não se dão conta, tem uma parte andina

A nascente do Rio Amazonas é numa região de neve Isso aqui é onde começa o Rio Amazonas, no Peru Nós precisamos olhar pra Amazônia como um todo, como uma região, em primeiro lugar, que tem seis países da Bacia Amazônica, e temos, se olharmos o bioma amazônico, nove países Às vezes, a gente até confunde as territorialidades Então, quando falamos de fazer a floresta valer mais em pé do que derrubada, nós, muitas vezes, nos referimos apenas a esse pedaço, à área do bioma da Amazônia, mas nós temos que olhar essa outra área em azul, que quer dizer a bacia hidrográfica, os rios que drenam pra essa área, como fundamentais pra manter esse todo

A Amazônia de que falamos, em especial a Amazônia do Amazonas, tem uma característica muito particular: ela é isolada, ela é distante Esse aqui é o município de Carauari, que fica, a grosso modo, a duas horas de avião, ou sete dias de barco de recreio de Manaus Município de Carauari Saindo de Carauari até a primeira comunidade onde a Fundação Amazônia Sustentável trabalha, são onze horas Pra subir o Rio Juruá, até chegar ao final dessa pequena reserva, que se chama Reserva do Uacari, são 50 horas de barco de recreio

Mostro isso aqui pra ilustrar que a Amazônia é muito complexa e é muito diversa Nós podemos estar olhando pra essa Amazônia Profunda, que tem características de um mundo extrativista, ou uma Amazônia como é o caso do norte do Mato Grosso, que é uma região do agronegócio, com soja, milho, etc, que são completamente diferentes Mas são muitas realidades Eu vou dar um zoom aqui nessa realidade da Amazônia Profunda, como se chama, essa Amazônia ribeirinha

E agora, entro na segunda parte da minha fala pra dizer como fazer isso, como fazer a floresta valer mais em pé do que derrubada Talvez a resposta mais simples pra isso seja investir no capital humano, investir nas pessoas Eu falei que as políticas públicas pra essa região são, de maneira geral, muito ineficientes, e essa é uma região das mais abandonadas do Brasil Talvez a ação mais transformadora que nós possamos fazer, na constituição desse capital humano, é investir numa educação diferenciada E aqui, eu ilustro um exemplo do que a FAS vem colocando em prática, e aqui, então, não são apenas ideias, são fazimentos, de levar a essas regiões remotas a oportunidade, primeiro, de conexão com a internet; segundo, de uma estrutura que tem escola, posto de saúde, alojamento de alunos, casa do professor, centro de inovação tecnológica, laboratórios, etc

, capazes de levar o conhecimento, mas não apenas o conhecimento da ciência formal, acadêmica, pra o meio do mato, mas levar uma oportunidade de diálogo de saberes O saber do índio, o saber do caboclo, tem que ser valorizado, e ele tem que se somar a esse saber científico, a essa inovação científica Essa estrutura, eu acredito, deveria servir de referência pra todas as territorialidades da Amazônia Como fazer com que a pesquisa do INPA, da UFAM, da UEA, enfim, das universidades que aqui estão, chegue ao meio da floresta? Nós precisamos de uma institucionalidade apropriada pra isso Temos nove dessas estruturas, em diferentes partes do estado, com ligação via satélite, permitindo não apenas que o aluno dessas regiões tenha o ensino formal, mas que ele também tenha o ensino complementar

É interessante que as pessoas que moram no meio do mato, nessa Amazônia Profunda, todas usam barco, mas nunca foi dado um curso sobre motores de barco Todas as pessoas usam gerador a diesel, pra energia elétrica, mas nunca tinha sido dado um curso sobre como cuidar de um gerador elétrico, e essas pequenas coisas são transformadoras, fazer com que as pessoas tenham uma educação que eu chamo de educação relevante É ótimo estudar Revolução Francesa, química fina, detalhes da biologia celular, mas nós precisamos, sobretudo, ensinar coisas que sejam capazes de transformar a vida das pessoas Uma das experiências mais exitosas que tivemos foi fazer o ensino de jovens que terminaram o ensino médio, um ano em horas-aula, formando empreendedores no meio da floresta Esses jovens, a meu ver, são os jovens capazes de levar adiante a difícil tarefa de fazer a construção do desenvolvimento sustentável no meio da floresta

Não vai ser um pesquisador urbano, seja ele de Manaus, do Rio de Janeiro, ou de qualquer outra parte do Brasil, que vai fazer isso acontecer, porque essas pessoas de fora se incomodam com pium, não aguentam o sufoco do calor, do banzeiro, etc, mas quem nasceu no "beiradão" lida com isso de uma forma muito tranquila, e essas pessoas são tão inteligentes quanto, só que elas nunca tiveram oportunidade de adquirir capacidades que são essenciais Isso tudo que a gente fez, a estrutura básica que tem, enfim, salas, espaço de reuniões, alojamento, alojamento com "hamaca", como se diz em espanhol, com rede, porque é muito mais fácil de gerenciar do que cama, do ponto de vista prático, casas dos professores, restaurantes, ensino de coisas como GPS, e, somado a isso, um ensino voltado pra o empreendedorismo Essas são imagens de oficinas que fazemos pra formar empreendedores no meio da floresta, fazer com que a andiroba, o pirarucu, etc, que têm um valor enorme, sejam capazes de ser transformados em riqueza

O manejo de madeira, em pequena escala, tem um desafio enorme, na questão da burocracia, que é uma tragédia A gente tem uma cultura no Brasil de fazer com que todo o acesso à legalidade seja feito de um custo muito alto Então, temos o desafio enorme de vencer isso, mas, quando conseguimos vencer, é possível melhorar muito a renda dos produtores de madeira O pirarucu é um ótimo exemplo de cadeia produtiva em que conseguiu-se um avanço muito grande, mas ainda existe um espaço enorme de avanço no que diz respeito à agregação de valor Nós não temos um pirarucu de primeira ainda, defumado, que seja acessível nos supermercados; não temos um pirarucu seco, de boa qualidade, também acessível; não apenas pensando na exportação pra outros países, mas, até para o próprio mercado interno, temos pouco disso

Mas estamos caminhando Acho que a boa notícia que eu queria dar pra vocês é que é possível fazer, está sendo feito e já foram dados passos muito importantes O desafio talvez seja criar oportunidades de ligar a inteligência e a inquietude do jovem urbano com a inteligência, a inquietude, a ousadia e o conhecimento do jovem caboclo Eu acho que aí tem uma oportunidade de um encontro de gerações muito interessante, e isso está acontecendo Tem uma iniciativa interessante, que se chama "Impact Hub", que é uma incubadora de pequenas empresinhas de jovens urbanos, em que a gente está criando laços com esses jovens da floresta

Eu queria concluir com um pouco de filosofia Eu gosto da Mafalda, como inspiradora em vários momentos Aqui, a Mafalda, nesse primeiro quadro, olha para o planeta com uma cara um pouco preocupada No segundo, ela dá um tapinha no globo e fala assim: "É, não se preocupe porque, neste exato momento, há milhares de pessoas estudando todos os seus problemas: superpopulação, fome, poluição, racismo, violência; todos os problemas" Aí, ela caminha, dá as costas para o globo, como se estivesse, então, satisfeita

Depois, no último, ela olha e fala assim: "É, já sei Há mais 'problemólogos' do que 'solucionólogos', mas o que haveremos de fazer?" Eu acredito que a gente tem uma cultura, não apenas no Brasil, mas na América Latina inteira, de ênfase nos problemas: "Por que tal coisa não funcionou?", "Por que tal coisa está dando errado?", etc Isso talvez tenha sido fruto de uma história de falta de democracia, onde a academia foi sempre vista como um lugar subversivo e, portanto, a academia sempre era relegada ao papel de um lugar de fazer críticas, e não a um papel de construir soluções E a gente criou esse vício, quase como se fosse um vício psicológico, e a gente gasta toda a energia fazendo teses de mestrado, doutorado, etc, explicando: "Por que deu errado esse problema?", mas não fazendo a construção de soluções

É interessante que construir soluções é muito mais desafiador, do ponto de vista emocional, porque, ao fazer uma crítica, o seu risco é praticamente zero Você fala: "Morreu o pé de abacate" "Morreu porque o cara plantou errado, ou não adubou, não aguou", etc Mas o seu risco é zero Agora, se você falar assim: "Eu vou plantar esse pé de abacate de novo e vai dar certo", corre o risco de o pé de abacate morrer

Então, o papel da "problemologia" é mais confortável e as pessoas equivocadamente acham que aquele que faz a crítica tem um status superior porque ele aponta defeitos Eu acredito que a gente tenha que mudar profundamente isso O mais desafiador, do ponto de vista intelectual, não é fazer a crítica Fazer a crítica é fácil, é quase óbvio É muito mais difícil fazer a construção de soluções e, além de mais difícil, é muito mais urgente

Nós vivemos uma crise planetária seriíssima, mais grave do que a grande maioria das pessoas se dão conta Nós vivemos uma crise não apenas do clima, mas uma crise de degradação ambiental seriíssima O que aconteceu agora com o desastre de Mariana foi uma coisa chocante Os oceanos estão numa situação crítica Nós vamos fazer uma profunda revolução e, pra fazer essa profunda revolução, nós precisamos fazer um culto à "solucionologia"

E eu queria concluir com essa mensagem: fazer a floresta valer mais em pé, na Amazônia, do que derrubada, é essencial pra o futuro da Amazônia, pra o futuro do planeta Isso é possível ser feito e a melhor forma de fazer isso é investir nas pessoas e investir na disseminação e no desenvolvimento de soluções pra os grandes desafios que temos e, ao mesmo tempo, as grandes oportunidades que temos É possível, está sendo feito Precisamos de mais cúmplices dessa utopia Muito obrigado

(Aplausos)