Economia e sustentabilidade: fatos, mitos e caos | Wilson Cabral | TEDxSãoSebastião

Tradutor: Márcio Capone Nascimento Revisor: Claudia Sander Sustentabilidade e economia são coisas que estão intrinsecamente relacionadas A economia reflete nosso "modus operandi", reflete nosso modelo de vida, o que a gente faz, espera, anseia, etc

E isso nos leva a ser ou não sustentáveis E quais são os fatos que eu gostaria de apresentar? São indicadores de limites planetários Os nove indicadores estão ali, e se chegou à conclusão que, em quatro deles, nós já atingimos limites bem superiores aos níveis de risco aceitáveis, que são: os ciclos biogeoquímicos, a biodiversidade, mudanças de uso da cobertura da Terra e, por fim, mudanças climáticas Então, vejam que esses quatro estão todos entrelaçados As mudanças climáticas surgem como efeito das mudanças do uso da terra, que têm como um mote, por exemplo, a expansão da agricultura sob padrões convencionais, bem diferentes da agricultura do Seu José, que é muito mais sustentável, ou que é sustentável de fato

Quer dizer, essa agricultura que exige uma quantidade muito grande de nutrientes exógenos à terra, que precisa processar, que precisa extrair inclusive do petróleo, pra lançar mão, ela quebra os ciclos biogeoquímicos, e a gente a está expandindo, e talvez esse seja o principal problema que a gente tem hoje A pegada ecológica foi criada na década de 90 pra tentar representar um indicador de quanto a gente impacta o planeta, e quanto o planeta ainda tem capacidade de resistir E se chegou a conclusão que, desde a década de 70, já utilizamos mais do que um planeta Terra pras nossas atividades Ou seja, como é que pode isso? A gente já utiliza mais do que uma, mas só tem uma Como é isso? A gente está avançando exatamente na sustentabilidade; a gente está avançando exatamente na nossa capacidade de manter essa possibilidade de uso e usufruto da Terra pras gerações posteriores

Tem jeito? Tem saída? Tem solução? A mesma metodologia de pegada ecológica que aponta esses problemas, nos diz que se eu reduzir, por exemplo, emissões de CO2 em 30%, a gente tem condições de reduzir essa pegada, e chegar, por exemplo, a uma vez e meia, uma Terra e meia É sustentável? Não, absolutamente Mas indica que há um caminho que pode reduzir essa pressão sobre o planeta Esse gráfico é interessante porque mostra um reflexo dessas projeções pra nós, pro Brasil Isso aqui é um resultado de precipitações, chuva, no futuro: 2070 até 2100

Ou seja, daqui a 80 a 100 anos Ele projeta, num cenário mais otimista, pra boa parte do país, toda a área acima de São Paulo, incluindo São Paulo, uma redução em torno de 10 a 25% de precipitação, redução de chuva O que significa isso? Significa que esses eventos extremos de seca, que a gente vivenciou no ano passado e ano retrasado, tendem a se multiplicar, a adotar um padrão de frequência muito mais contundente, e que, por exemplo, atividades econômicas como Nossa geração de eletricidade, hoje é 70% de origem hídrica Quer dizer, isso afeta todo o nosso modo de viver Então eu pego duas variantes do modelo, uma que dá uma projeção mais pessimista e uma mais otimista, e digo pra sociedade: é assim que, talvez, se comporte o clima no futuro O que vocês querem fazer? E a sociedade toma a decisão Esse é mais ou menos o raciocínio lógico que se traduz a partir de uma pesquisa científica como essa

Por que é que nós, hoje, vivenciamos uma era, que alguns pesquisadores têm apontado como sendo a era do antropoceno? Ou seja, a nossa pegada, a pegada do homem na Terra, hoje, segundo esses pesquisadores, tem a capacidade de mudar a geosfera como tempos geológicos no passado Por isso a criação de uma nova era Bom, tem mitos por trás disso, da nossa forma de lidar com recursos naturais, etc O primeiro mito é o da superpopulação Isso começou lá com Thomas Malthus, na Inglaterra do século 19, que achava que o crescimento da população a uma taxa maior que a taxa de produção poderia levar o mundo ao colapso

Isso foi retomado na década de 70, tem uma certa lógica racional por trás disso, mas se a gente for olhar a população hoje no mundo, ela está entrando numa fase de estabilização das taxas de crescimento Então, talvez a população não seja mais esse grande problema Mas talvez a forma como a população atual lida com o meio ambiente, com recursos naturais, etc seja o problema Bom, aí vem o mito da finitude ou da infinitude

Que mito é esse? É um mito que está inserido no âmbito da economia clássica, da economia que a gente vivencia quando um economista fala no noticiário, que é: os recursos naturais são infinitos A água é infinita, o petróleo é infinito, isso não vai acabar E, se por acaso acabar, tender a acabar, o preço vai aumentar tanto, que diminui a pressão, e ele não acaba Infinito E por fim, o mito da tecnologia

É o "tech-fix" É muito comum ouvir de meus colegas, ouvir da comunidade associada à engenharia que a tecnologia resolve tudo Que qualquer problema ambiental gerado hoje, pode ser tecnologicamente resolvido no futuro De certa forma, há uma certa verdade nisso Mas o problema é o seguinte: posso perder a resiliência ecológica antes que a tecnologia resolva

E ao perdê-la, eu perco minhas funções ecossistêmicas, perco meu serviço, perco a água Queremos chegar até lá? Bom, uma das causas a que eu atribuo esse nosso problema ambiental global, é a supervalorização do indivíduo e do consumo Duas origens Uma vem de certa forma do liberalismo, e outra do capitalismo industrial e sua máquina de mover o mundo a partir do consumo Juntou isso aí

Eu entendo como uma boa raiz da nossa degradação ambiental atual, a junção desses dois fenômenos Um economista famoso, Joseph Stiglitz, em 2001, foi Nobel de economia em 2001, postou esta frase: "O que a gente mede define o que a gente faz Se a gente mede mal, a gente faz coisa errada"

Literalmente é isso Crescimento econômico Hoje a gente fala muito em crescimento, quando a gente fala de "mainstream", de pessoas que estão na liderança da definição econômica do mundo, sempre se fala em consumo e aumento do PIB PIB é o nosso referencial Infelizmente é nosso referencial, inclusive, de desenvolvimento

E a pergunta que se faz é: as nossas medidas estão certas, pensando no que o Stiglitz propôs? Vejam bem Alguns exemplos Se eu reduzir o consumo de cigarro, eu reduzo o PIB Se eu reduzir a indústria bélica, eu reduzo o PIB Ou seja, eu vou decrescer Será que eu decresço mesmo, se eu reduzir a indústria bélica? A gente precisa começar a mexer com esses valores e a entender um pouco mais o que está por trás disso

Será que realmente a gente precisa crescer? Toda crise econômica Podem pegar a visão dos economistas "mainstream" Qual é a saída da crise econômica? Respondam

Consumo Consumo Essa questão dos indicadores, o que a gente usa pra dizer se vale a pena investir nisso ou naquilo, vem de uma deturpação de valores também E nos coloca valores completamente deturpados Então, vamos voltar aos mitos

Temos aí dois mitos Um mito do futebol e um mito da canoagem Este bem mais recente, muitos nem o conheciam antes das olimpíadas Neymar recebe em torno de R$ 7,5 milhões por mês O salário atual dele

E o Isaquias Queiroz? Será que um vale menos que o outro? Nós atribuímos, de alguma forma, esses valores distorcidos, gente Eles são objeto do que a gente atribui Por isso a gente tem que pensar, quando pensa em sustentabilidade, é necessário, não suficiente, é necessário mudar a atribuição de valores Já encaminhando pro final da apresentação, pra onde vamos? Isto é um mapa aqui da região Nós fizemos uma pesquisa recente, pegando aqueles dados e projeções do INPE, etc

, e analisamos quais são as vulnerabilidades do litoral norte em termos de mudanças climáticas, elevação do nível do mar e outras variáveis Estas áreas em vermelho e amarelo são áreas de média e alta vulnerabilidade São áreas que deveriam ser olhadas com muito cuidado São áreas que, para um legislador ou para o governo, deveria dizer: "Cuidado com essas áreas, não as ocupe inadvertidamente porque elas são vulneráveis e podem estar em risco no futuro" E no entanto, o que vocês estão vendo: ela está projetada em cima do mapa do zoneamento ecológico do estado, do que se propõe do zoneamento ecológico do estado

Vocês podem ver que essas áreas estão em áreas em que se prevê expansão das atividades econômicas Nós não estamos olhando, enquanto sociedade, pra essa vulnerabilidade Aqui em Caraguá, é um caso até pior, uma área muito mais contígua e problemática, e estamos aceitando isso O que a gente pode quais são as nossas saídas enquanto sociedade? Ou nós aceitamos este "caos", alguns acham que não, que isso vai se reequilibrar e que a gente sai disso, ou, o que a gente pode fazer? Bom, se eu tivesse a resposta certa, eu a estaria vendendo a um preço bastante alto Mas eu diria que a resposta certa, de certa forma, já vem sendo dada desde as 13:50 neste auditório É a resposta certa do Seu José, que pra mim é um doutor "honoris causa" É a resposta certa do Guilherme

É a resposta certa de diversas pessoas que passaram por aqui e apontaram caminhos e soluções É sairmos do global para o local e começarmos a repensar o nosso sistema de valores Eu diria, como sugestão: reduzir consumo, quebrar mitos, pensar A gente tem deixado de pensar, na sociedade atual, cada vez mais Mudar valores, participar Efetivamente participar Quando a gente não participa, tomam decisões por nós E é exatamente o que está acontecendo em relação às mudanças climáticas e em relação à degradação do planeta

Pra finalizar, eu diria que sustentabilidade implica em uma mudança da sociedade do "ter" pra sociedade do "ser" Sem isso, nós não seremos sustentáveis Obrigado (Aplausos)