Desenvolvimento Sustentável? – Sanga, Niassa, Moçambique

Em 2012, passamos um mês no distrito de Sanga, na província de Niassa, no norte de Moçambique, para uma pesquisa do mestrado Éramos um grupo de profissionais de diferentes áreas buscando analisar possibilidades de um desenvolvimento mais sustentável

Encontramos uma situação comum a diversas realidades Em nome do que alguns chamam de desenvolvimento, os interesses de comunidades tradicionais ali residentes são descartados A que custo afinal aconteceu esse desenvolvimento? A quem ele traz benefícios? Resolvemos compartilhar essas perguntas a partir do que vimos e assim surgiu esse curta Sanga é um distrito de base rural com cerca de 60 mil habitantes, metade com menos de 15 anos Os principais problemas relatados pelos moradores são a dificuldade de acesso a água, postos de saúde e a escolas

Andando pela região, começamos a perceber a presença de grandes monoculturas de eucalipto e pinus no lugar da floresta nativa e das roças Nosso interesse aumentou quando soubemos que eram investimentos de empresas da Suécia e da Noruega Decidimos conhecer o ponto de vista das comunidades, professores e alunos a respeito É importante explicar que, em Moçambique, a terra é propriedade do Estado e não pode ser vendida O processo de titulação do direito do uso e aproveitamento da terra inclui o parecer das autoridades administrativas locais e consulta às comunidades, para confirmação de que a área está livre e não tem ocupantes

Conversando com as comunidades, percebemos alguns problemas neste processo de consulta [Asumani Imedi Sunula, régulo (líder) da comunidade de Lidondje, explica no dialeto yao] [Intérprete] A conversa foi a seguinte, eles disseram que “nós queremos plantar árvores nessa vossa vana, mas nós temos uma ajuda Nós vamos ajudar a comunidade, essa vossa comunidade A ajuda que nós vamos ter: escola, poço e mais outras coisas” Mas aquilo, de 2009 até hoje, não aparece nada, mas esta comunidade aqui está

sempre quando houve queimada naquela empresa, quando há queimada, essa comunidade que vai ajudar [Intérprete] Começam a ter umas informações de mentira para a comunidade Mas a comunidade sempre aceita

Por exemplo, quando houve queimadas lá Porque lhe disseram: Quando há queimadas, tem que nos ajudar, quando há problema, tem que nos ajudar, e essa comunidade sempre ajuda, mas eles prometeram que, em cada ano, teria subsídio para comunidade, mas nunca aparece subsídio, nem nada, nem nada Vimos que a situação de pobreza é um aspecto que vulnerabiliza a população e que o governo se ausenta no estabelecimento de regras que garantam os direitos dessas comunidades

Você tem vontade de trabalhar nestas empresas florestais? [S Chimbalanbala, intérprete, morador da comunidade de Mapudje] Sim, tenho sim Por quê? Porque eles, numa pátria que está eles ajudaram muito Essa nossa pobreza, hoje em dia, nas comunidades, onde está a maioria destas empresas, vá que vá, estão tentando desenvolvimento Está a tentar desenvolver Porque posso conseguir aquele subsídio, dar ao meu filho ir a escola, tanto quanto também minha vida, posso me sustentar, e por isso estou disponível em trabalhar nestas empresas [José Pedro José Mantega, estudante da UniLúrio] Geralmente, nós temos discutido acerca de qual é a relação entre as empresas florestais e a comunidade

Qual o progresso que as empresas trazem para a comunidade local E nesse contexto, nós temos encontrado algumas vantagens mas também temos encontrado algumas desvantagens As empresas florestais trazem desenvolvimento, em algum momento melhoram a vida da comunidade por um tempo, mas chega uma certa fase em que esse desenvolvimento vai decrescendo pouco a pouco Não sei, por mim não tenho nada contra Talvez o que tenha que se fazer e olhar mais, se discutir mais o assunto comunidade, onde é que vai ficar a comunidade com a implantação de empresas florestais

O que eles pensam sobre essas empresas? [dialeto yao] [Intérprete] O que ele está a pensar é em haver coordenação da empresa para com a comunidade Eles pensou e fez: não; mas sentaram juntos e começaram a conversar juntos Ele acha que isso precisa acontecer, é isso? Sim [Custódio, estudante da UniLúrio que trabalhou com empresas florestais e comunidades na região] Como é que eram as condições de trabalho pra você? As condições de trabalho eram boas Faço aqui menção em termos de equipamento, relacionamento entre colegas da direção, era muito boa, mas muitas vezes eu me sentia mais à vontade a trabalhar com a comunidade

Porque aprendi muitas coisa deles que antes eu só sabia na carteira e tendo um tacto com eles fui aprendendo muito mais, não só lições de trabalho, mas lições de vida também, com a comunidade tive