Clima + mobilidade + resíduos + consumo = “e eu com isso?” | Ana e Pedro Avzaradel | TEDxRio

Tradutor: Leonardo Silva Revisor: Wanderley Jesus Apresentador: Desafio, duplo! Bem-vindos Ana Avzaradel: Obrigada

Pedro Avzardel: Boa tarde AA: Boa tarde, pessoal Vocês já ouviram aqui hoje algumas histórias inspiradoras, algumas reflexões sobre o papel do indivíduo e do cidadão PA: E agora, nós vamos dar sequência, tratando de desafios que vão ligar metrópoles e meio ambiente AA: Tanto do ponto de vista da gestão PA: Como também da regulação AA: E quais são, então, esses desafios? Quais são os principais problemas que incidem sobre as cidades? Claro que a lista não é pequena Então, a gente resolveu selecionar alguns deles, pra tratar com vocês aqui hoje E a gente vai começar pela mudança do clima, um problema global

Em 2012, a gente sediou aqui a Rio+20, reunindo mais de 190 países e 60 mil pessoas, 20 anos após a Eco-92, quando se consolidou o conceito de desenvolvimento sustentável Felizmente, em 2012, o mundo não acabou, como algumas teorias equivocadamente indicavam, mas o último relatório do IPCC, um grupo de cientistas que reúne os principais cientistas do mundo todo que tratam de mudança do clima, indica que a atuação, a interferência dos seres humanos no sistema climático do planeta está ocorrendo, e que a mudança do clima, por sua vez, oferece riscos tanto pra gente quanto para o meio ambiente Portanto, apesar de as teorias mais catastróficas não terem se concretizado, fica clara a urgência de que a gente, de fato, se mobilize e se prepare pra essa nova realidade, o que inclui as cidades O segundo tópico de hoje é o tópico da mobilidade Esse é imbatível

PA: É verdade Nós acabamos de ouvir aqui uma história sobre uma pessoa que se chama Clarice Como ela, tantas outras enfrentam questões de mobilidade Quem aqui nunca perdeu um compromisso, nunca perdeu a hora, porque ficou duas ou três horas num engarrafamento? Se existir alguém aqui na plateia que levantar o dedo e disser assim: "Eu nunca Isso nunca aconteceu comigo", certamente pouquíssimas pessoas acreditarão, não é verdade? AA: É, todo mundo sofre como um todo: a população; as empresas se preocupam, claro, porque é impossível exigir produtividade de alguém que fica duas, três horas no trânsito, e os governos também precisam priorizar corretamente os investimentos e os incentivos que tocam nessa questão

O próximo tópico que a gente vai trabalhar é o de resíduos Claro que ninguém aqui quer ter um depósito de lixo perto de casa, mas a gente precisa sim se preocupar com de que forma esses resíduos estão sendo tratados, de que forma eles estão sendo coletados e pra onde isso tudo vai Hoje, a gente observa que basta chover que os bueiros da cidade entopem e as ruas alagam Então, agora mais cedo, estava se falando das cidades mal planejadas Existe uma questão de manutenção que deveria ser observada, sem dúvida, mas não dá também pra gente só contar com o governo Se a gente continuar jogando lixo nas ruas, não tem manutenção que dê conta disso Portanto, é importante a gente entender qual é a nossa parcela, qual é a nossa participação nessa equação Não dá pra continuar de braços cruzados, esperando o governo e as empresas se mobilizarem

A gente precisa entender qual o nosso papel como consumidores e como cidadãos PA: Ana, você estava falando sobre a Rio+20 aqui, a Eco-92 Desde a década de 90, desde que nós tivemos a Eco-92 aqui, o Brasil vem adotando uma postura bem pró-ativa em relação às mudanças do clima

Uma prova disso é que, mesmo sem ter metas obrigatórias lá no Protocolo de Quioto, o Brasil, em 2009, editou a sua Política Nacional de Mudança de Clima, uma lei que prevê diversos instrumentos, e muitos deles já estão até funcionando Um exemplo interessante é o Fundo do Clima, que apoia projetos, pesquisas, estudos, e também uma boa parte desse fundo vai pra financiar empreendimentos que tenham um impacto positivo na questão climática Agora, alguns instrumentos ainda não saíram do papel Um exemplo que nós poderíamos dar aqui é o Mercado Brasileiro de Redução de Emissões, ou seja, o Brasil prevê esse mercado na Política Nacional, esse mercado teria uma contribuição muito relevante, principalmente de alguns setores-chave pra questão climática, mas ele ainda não saiu do papel AA: É, você tem razão; no caso de mudança do clima, a gente já tem um aparato regulatório importante, robusto no país, mas é preciso, ainda assim, ter uma sinalização clara de que rumos o país quer tomar, pra que as empresas possam internalizar essa nova variável no seu planejamento

Do ponto de vista das cidades, é importante entender qual o impacto que a mudança do clima vai trazer e, claro, isso varia de uma cidade pra outra, mas também entender de que forma isso toca na população que mora nessas cidades, que é o que a gente chama de vulnerabilidade No caso do Rio de Janeiro, por ser uma cidade costeira, a gente se preocupa imediatamente com a questão da elevação do nível do mar, mas outras questões, como o impacto sobre a agricultura, deslizamentos de terra, também têm que ser observadas PA: É verdade Só pra lembrar, se nós formos andar alguns anos pra trás, tivemos duas tragédias: uma em Santa Catarina, em 2009, e outra na Região Serrana do Rio de Janeiro, 2011 E, como nós vimos mais cedo na palestra do Pierre, não dá pra ficar culpando as chuvas, não é verdade? AA: É isso aí e, se a gente olhar para o caso de São Paulo, por exemplo, as previsões indicam a possibilidade de um aumento do número de dias com chuvas intensas

Tudo bem, hoje até pode soar como boa notícia, mas o fato é que, se a gente não se planejar e não internalizar a possibilidade de ter esse novo cenário, essa nova realidade, é possível que a gente encare também um futuro próximo com aumento de enchentes e de alagamentos Bom, isso nos traz pra questão da mobilidade Voltando a São Paulo, hoje, se a gente observa o inventário de emissão de gases de efeito estufa da cidade, cerca de 50% das emissões de dióxido de carbono provêm do uso de transportes; em particular, o rodoviário Hoje, Rio e São Paulo já podem ser consideradas as cidades mais engarrafadas das Américas E o que pode ser feito a respeito? As empresas já começam a implementar algumas medidas, como instituir "home office" – você passar talvez a trabalhar um dia ou dois em casa durante a semana -, horários diferenciados de trabalho pra evitar que as pessoas fiquem muito tempo no trânsito, mas ainda, claro, não é suficiente

Fala-se muito da introdução de veículos híbridos, veículos elétricos Hoje, no Brasil, um veículo elétrico custa cerca de R$ 200 mil, e a gente não tem ainda nem infraestrutura capaz de suportar esse tipo de veículo Mas além disso, mesmo a introdução desses veículos, se fosse o caso de a gente adotá-los como medida, também deveria estar aliada a outras medidas, pra que a gente possa, assim, ter uma mobilidade mais sustentável, ou seja, a solução pra transportes tem que ser também pensada em conjunto com a questão da habitação, o que novamente nos remete ao tema de cidades, de metrópoles Os pontos de integração modal, que hoje nos fazem repensar, de certo modo, aquele espaço urbano, o uso daquele espaço urbano, poderiam servir pra gente ofertar serviços, comércio É importante ofertar pra população um transporte público de qualidade, com conforto, trazer informação em tempo real e, sobretudo, que esse transporte tenha uma fiscalização e operacionalização mais adequada

PA: É, Ana Você sabe que Rio e São Paulo são as cidades mais engarrafadas das Américas, segundo um estudo recente, mas várias metrópoles no Brasil enfrentam questões sérias de mobilidade Então, procurando começar a planejar uma nova política de mobilidade, o Brasil editou uma lei que traz a nossa Política Nacional de Mobilidade Urbana E, claro, vocês vão achar que é papo de advogado, que eu vou ficar falando muito sobre as leis, mas eu vou falar apenas alguns aspectos, que são os principais Por exemplo, nessa lei, fica muita clara a prioridade que vai ser dada ao transporte coletivo em detrimento do transporte individual, aquela pessoa que sai com um automóvel pra ir para o trabalho, pra ir pra algum compromisso E como é que isso vai ser feito? Bom, essa lei traz alguns instrumentos interessantes, como, por exemplo, a possibilidade de você restringir o tráfego de veículos em determinados locais e horários, que são os chamados rodízios, que já ocorrem em algumas cidades como São Paulo; também, mas não só isso, uma política também possível de sobretaxa em cima de alguns modos de transporte; da cobrança de pedágios em determinadas áreas da cidade, ou seja, pode ser que no futuro nós tenhamos que pagar um pedágio pra entrar com o carro aqui no centro do Rio de Janeiro ou de outra cidade dentro do Brasil; e traz também uma coisa muito interessante que é a política de estacionamentos

Olha, se o poder público quer desestimular o uso do automóvel, tem uma forma muito simples: é só acabar com as vagas Muitas vezes, você vai sair de casa, pega a chave do carro, e aí pensa: "Onde eu vou parar o carro?", e, muitas vezes, com inteligência, você deixa a chave e pega um táxi Você sabe que vai rodar, não vai achar vaga, ou vai achar uma vaga com um preço astronômico Então, onde o poder público quiser incentivar o uso do automóvel, permite estacionamentos e, onde for o caso de desestimular, ele simplesmente vai fazer o quê? Diminuir esses espaços com estacionamentos Aliás, alguém aqui veio de carro? Alguém veio? Pô, que interessante, hein

Acho que quase ninguém levantou a mão Legal Agora É? Ou querem levantar a mão? (Risos) Eu não vi quase ninguém levantar a mão, gente Eu acho bacana, é uma opção sustentável Vieram de transporte coletivo, a maioria Muito legal AA: Bom, você estava falando do Plano de Mobilidade Urbana e a gente também comentou antes sobre as metas de redução de emissão de gases de efeito estufa

No caso de resíduos, a gente observa que a Política Nacional de Resíduos Sólidos havia instituído que, para o dia 2 de agosto de 2014, dez dias atrás, não poderia mais haver lixões a céu aberto no país como um todo Então, acho que não é preciso nem dizer que fim levou essa meta, mas basta a gente olhar pra algumas estatísticas Hoje, 40% de tudo que é gerado, de todos os resíduos que são gerados, apenas 40% seguem pra uma destinação adequada Isso faz com que a gente tenha uma perda de cerca de R$ 8 bilhões por ano com o material que deixa de ser reciclado Claro que a gente já está muito avançado em algumas questões, como é o caso das latinhas de alumínio, mas, de tudo que é coletado corretamente, menos de 2% segue pra separação e pra reciclagem

Portanto, é importante colocar mais medidas que incentivem o reuso, a reciclagem, condições mais dignas de trabalho para os catadores e, claro, uma geração menor de resíduos É nisso que a gente quer chegar Bom, pra quem não percebeu a coincidência de sobrenomes, o Pedro é meu primo Ele veio lá em casa há pouco tempo pra gente preparar um pouquinho essa conversa de hoje e, por acaso, não foi possível a gente cozinhar Chamei um cara pra consertar e ele falou: "Não Esquece, joga fora e compra outro

" Falei: "Não é possível"; chamei outro cara, consegui consertar, mas o fato é que as coisas não são feitas pra durar; são feitas pra você jogar fora, voltar ao mercado e comprar de novo, que é o que a gente chama de obsolescência programada PA: Pois é, comigo esse ano aconteceu a mesma coisa, e eu consegui consertar o micro-ondas e ele está lá, firme e forte Agora, imaginem, se eu e a Ana simplesmente tivéssemos jogado fora o fogão e o micro-ondas, a quantidade de resíduos totalmente desnecessários que nós teríamos jogado no ambiente Bom, a questão do lixo também é objeto de uma política específica, a Política Nacional de Resíduos Sólidos Essa lei traz duas coisas muito interessantes

A primeira delas é que ela estabelece a responsabilidade compartilhada: não só dos fabricantes, mas dos fabricantes, comerciantes, importadores, do poder público e de nós que, num determinado momento dessa cadeia, somos consumidores, mas, após, continuamos sendo cidadãos Então, a lei estabelece, além disso, a chamada logística reversa O que seria isso? O caminho inverso Já que o produto tem toda uma logística, tem todo um caminho, pra vir da produção até o nosso consumo, o que sobra desse consumo deve voltar ao setor produtivo para que ele consiga reutilizar, reaproveitar, reciclar e, se nada disso for possível, que ele possa dar uma destinação adequada a esses resíduos AA: Sem dúvida, e não dá pra gente continuar falando de resíduos se a gente não falar, pelo menos um pouquinho, do que contribui pra geração desses resíduos

E, no caso de compras, de consumo, de novo é um tema que nos remete à atuação do poder público, do setor privado e da gente e, sobretudo, nos faz pensar um pouco sobre o papel da sociedade, o comportamento do consumidor Quando os governos e as empresas internalizam no seu processo de compras o critério da sustentabilidade, eles estão assumindo um papel importante, não só no sentido de dar um bom exemplo, permear esse conceito pela sua cadeia de fornecedores e mostrar para os indivíduos que trabalham nas empresas que vale a pena Há pouco tempo, foi lançado um manual de compras que nos mostra a importância de se olhar para o ciclo de vida do produto, e pra gente analisar que o impacto ambiental do produto que a gente consome e que depois a gente descarta não se restringe apenas a essas etapas, a etapa do consumo e, sobretudo, a etapa do descarte, mas ela deve ser observada, ela permeia toda a cadeia de produção daquele produto, passando desde a extração de matéria-prima, o processo de produção, transporte, consumo, disposição final Portanto, isso tudo tem que ser observado e faz com que a gente consiga internalizar essa externalidade ambiental e faz também com que o próprio consumidor possa se enxergar como um elo dentro dessa cadeia Ou seja, a gente compra porque a gente gera demanda e, depois de consumir, a gente também gera esse resíduo

Isso também é nossa responsabilidade PA: É, verdade, ou seja, existe o manual, existe informação, existe inclusive uma lei que determina que o poder público, nas suas aquisições, ou seja, na compra de produtos ou na contratação de serviços, leve em conta, sempre que possível, o critério da sustentabilidade Então, por exemplo, ao adquirir um produto em grande escala, o poder público levaria em conta o ciclo de vida dos produtos Só que essa lei ainda não está sendo tão aplicada como poderia AA: Pois é, hoje, apesar de o governo já internalizar o critério da sustentabilidade nas suas compras, apenas 0,1% das compras do governo de fato priorizam essa questão

Agora, a pergunta que fica é: e a gente? Hoje, mais cedo, o Pierre eu acho que estava comentando aqui que existem duas categorias de pessoas que consideram que os recursos são finitos: Eu sou economista, meu pai é psiquiatra e psicanalista e minha mãe é psicóloga Então, talvez eu esteja aqui pagando um pouquinho os meus pecados Mas o que a gente pode fazer? PA: É, bom Perguntando para o advogado? Olha, gente, o que nós podemos fazer? O que nós devemos fazer? Bom, muita coisa Nós não somos apenas sujeitos passivos nessa história Ao contrário, nós temos que Nós temos que adotar e podemos adotar opa, tem que voltar (Risos) voltar o slide ah tá

e adotar atitudes pró-ativas em todos esses campos Então, por exemplo, no que se refere a compras, não dá pra ficar apenas comprando produtos por impulso, olhando para o preço, para a aparência Nós temos que pensar verdadeiramente em questões ambientais e, mais do que isso, nós temos que pensar várias vezes antes de comprar um produto se nós podemos ainda consertar o que ainda existe, por exemplo

No que se refere a mobilidade Ah, está voltando resíduos, né? Nós somos a ponta inversa da cadeia Nós somos a ponta da logística reversa Não dá pra ficar esperando que o poder público, a coleta seletiva, que as empresas venham bater na nossa porta Nós temos que, de alguma forma, contribuir para que isso aconteça, seja pedindo para o síndico do prédio, seja entrando em contato com a companhia que recolhe o lixo

Nós temos que pensar em gerar menos resíduos, como, por exemplo, consertando algumas coisas AA: No caso de mobilidade, claro, a gente pode pensar em instituir carona solidária seja no prédio onde a gente mora, nos condomínios, no trabalho e, sobretudo, quando possível, utilizar transporte público em detrimento do privado PA: É verdade, podemos, em algumas situações, até caminhar, pedalar, ou seja, fazer um exercício, ter um estilo de vida mais saudável e até perder uns quilinhos, não é verdade? Bom, agora, se você ainda acredita que a mudança do clima é esse bicho de sete cabeças, é essa coisa inalcançável, que você nada pode fazer pra contribuir para um clima melhor, pra uma questão climática melhor no futuro, então nós temos que pensar que tudo isso, todos esses hábitos insustentáveis, toda essa forma insustentável que nós temos adotado até aqui, e aí falando governos, empresas e pessoas, tudo isso também consiste, tudo isso também incorpora a nossa pegada climática Então, mudar esses hábitos, não só de consumo, mas outros que nós vimos aqui, tudo isso vai contribuir pra um clima melhor no futuro, em todos os sentidos Então, ou seja, não adianta você esperar que uma simples lei no papel mude a realidade

Nós, todos nós, temos que ser agentes multiplicadores, nós temos que ser agentes dessa mudança, pra que pessoas com uma cultura sustentável possam botar em prática leis que cuidam do meio ambiente AA: Essa é a mensagem que a gente queria deixar com vocês aqui hoje, pessoal, que juntos, governos, empresas e cidadãos, podem sim buscar soluções mais efetivas pra que a gente possa morar em cidades mais sustentáveis AA: Obrigada PA: Obrigado (Aplausos) (Vivas)