Brazil, Coastal Erosion, Sustainable Development: Jennie Bernstein at TEDxGallatin

Tradutor: Cris Babuska Revisor: Maricene Crus Oi, meu nome é Jennie e esta noite, vou conversar com vocês sobre um lugar que pode parecer totalmente irrelevante para nós aqui em Nova York, na esperança de convencê-los que as lições que podemos aprender lá, embora inesperadas, são de importância universal Vamos falar sobre Fortaleza

Fortaleza é a capital do Ceará, na região Nordeste do Brasil Ela é historicamente conhecida por seu clima árido, por seu status de subdesenvolvida e sua alta incidência de criminalidade, mas recentemente, tem sido procurada como um destino turístico fascinante, principalmente por suas belas praias Em março do ano passado, viajei para Fortaleza não só para curtir as praias, mas também, para explorar meu interesse na interseção de questões sociais e ambientais, especificamente, como a violência urbana se encaixa nessa interseção Para tanto, observei um bairro chamado Pirambu, que é uma favela, ou comunidade, no litoral da parte oeste da cidade Esta é uma comunidade de 400 mil pessoas, sendo assim, uma das maiores favelas do Brasil, e é o lugar que a família que me hospedou, que mora na parte leste nobre e protegida da cidade, me aconselhou a não ir por ser um lugar cheio de violência, crime e pobreza

Mas quando cheguei no Pirambu, para conhecer as pessoas e ver o que estava, de fato, acontecendo, a realidade que encontrei foi muito mais complexa do que tinham me falado Quero compartilhar com vocês três experiências comuns que vivenciei no Pirambu A primeira mostra a imagem que a minha família anfitriã havia me falado e a imagem que temos em mente quando pensamos em uma favela Este é um lugar onde os serviços e estruturas que associamos com urbanização estão visivelmente ausentes Coisas como estradas pavimentadas, rede de água e esgoto ou energia elétrica, além de outras coisas, não existem

Entretanto, cerca de 62% das pessoas que vivem no Pirambu são consideradas posseiras, o que significa que não têm documentação da terra que ocupam, tampouco possuem direitos essenciais de cidadania Em português, um outro jeito de se referir a um lugar como este é dizer "área de risco", e uma vez que entramos no Pirambu fica claro que riscos ao bem-estar físico, social e econômico estão onipresentes Porém, a segunda experiência que tive, conhecendo as pessoas do Pirambu, foi que por conta desses riscos, elas criaram redes sociais e econômicas extremamente extensas e poderosas Este é um lugar onde as pessoas se conhecem, sabem onde encontrar produtos acessíveis, do vendedor de rua que pode ser o "faz-tudo" ou o líder do grupo da igreja É um lugar onde as pessoas se mobilizam e reúnem quaisquer recursos que têm quando surgem problemas ambientais, sociais e econômicos, a fim de formar redes sólidas como grupos de estudos bíblicos ou clubes de surfe, ou como o que mostra essa imagem atrás de mim: alguns do meus amigos que fazem parte dos dois grupos

E essas são as redes a que as pessoas recorrem, a fim de enfrentar e adaptar-se a qualquer problema que possa surgir, devido a sua posição como uma sociedade marginalizada, como uma favela Essa atividade estável e capacidade de adaptação estão registradas e incidem nas estruturas físicas e na lógica espacial de uma favela, que é um ambiente autoconstruído muito consistente e diversificado que tem o dinamismo de permitir adaptar-se a quaisquer tensões que possam surgir e atender às necessidades da comunidade A terceira experiência que vivenciei lá foi descobrir que a vida das pessoas está amplamente ligada à costa, e vocês podem ver o porquê Era um ótimo lugar, não só pela fonte de recreação das crianças e surfistas, pra mim, pelo tempo que passei lá, mas também, por ser o meio de vida dos pescadores E este lugar, independentemente de como os Pirambuenses interagem com ele, desempenhou um papel essencial na vida das pessoas

O que mais me preocupa não é o Pirambu ser uma favela, mas o fato de o local estar em risco Vou fazer um prefácio para apresentar um conceito ecológico que se refere a um sistema resiliente, como o que é capaz de absorver distúrbios enquanto mantém a qualidade de suas estruturas, processos e feedbacks Então, já observamos que a comunidade social do Pirambu possui uma resiliência única O que está em risco agora é devido a uma história, que merece uma TED exclusiva, de desenvolvimento e planejamento de decisões que levaram o litoral de Fortaleza a ser 98% artificial ou projetado Isso significa, brevemente falando, que o dinamismo natural da ecologia da costa, a resiliência e habilidade de absorver distúrbios está comprometida, e o resultado é uma erosão severa

Isso significa perda de praias e de terras e essa terra é perdida no Pirambu O governo, historicamente, ignorou isso por Pirambu ser uma favela e as pessoas de lá "não serem consideradas cidadãos", e só recentemente fez algo para mudar isso, iniciando um projeto chamado "Vila do Mar" Esse projeto ainda está 75% em andamento e quando estiver pronto, vai haver um paredão que visa impedir que uma erosão maior aconteça, haverá uma avenida ao longo desse paredão, que oferecerá acesso para o Pirambu e também, convenientemente, imóveis e uma área turística para a cidade Por fim, o governo prometeu que junto a esta missão, vai haver um esforço tremendo para revitalização e urbanização a fim de "melhorar a vida de 300 mil pessoas" Mas temos que questionar: "Que pessoas?" Para cumprir essas metas, o governo está retirando 10 mil moradores de suas casas no Pirambu, de suas comunidades resilientes, e colocando-os em casas populares, como estas atrás de mim

Enquanto essas casas populares oferecem muitos serviços de urbanização, que estavam em falta no Pirambu, eles se esquecem de incluir e incorporar elementos sociais e espaciais que ofereçam a estrutura para uma comunidade resiliente, mesmo diante dos riscos mais sérios e árduos que podemos imaginar Este lugar é planejado de acordo com uma lógica que enfatiza a estrutura, que enfatiza uma cidade estática, que não se adapta, e portanto, não incorpora o dinamismo, a flexibilidade e a diversidade com que contam os moradores do Pirambu, a fim de lidar com seus problemas Isso faz com que as pessoas que vivem nesses espaços "melhorados" reivindicassem uma sensação maior de vulnerabilidade, de falta de familiaridade não só com o novo lugar em si, mas com a própria lógica que o define As pessoas, em outras palavras, sentiam menos um senso de comunidade A resiliência da comunidade deles estava se deteriorando

E por que nos preocupamos com isso aqui em Nova York? Bem, se considerarmos o contexto global por um momento, e entendermos que 40 a 60% da população global vive a menos de 100 quilômetros do litoral e 123 milhões de pessoas, nos EUA apenas, moram em áreas em que há expectativa de exposição a algum tipo de erosão costeira ou ameaças associadas nas próximas décadas, podemos ver aqui, em vermelho, as áreas de maior vulnerabilidade à erosão hídrica Então, ao longo do litoral nordestino, próximo a ele, temos uma área de alta vulnerabilidade, como no trecho onde fica Fortaleza, no Brasil Nossas memórias do que significa a resiliência costeira estar comprometida e comunidades serem afetadas são bem recentes Se considerarmos o fato de que a areia atingiu 166% da massa terrestre de NY e 78 mil prédios, então é possível entender a gravidade desse fato

Enquanto isso, cidades costeiras como Nova York e Fortaleza são as mais populosas do mundo e essas populações estão crescendo, sendo que as populações que crescem mais rapidamente são as de favela Até 2030, é esperado que uma em quatro pessoas no planeta será morador de favela Mas e se pudéssemos ver as favelas não só como lugares de desafios e miséria, considerando essa realidade socioambiental, mas também como uma fonte de inspiração para que pudéssemos entender e construir mais comunidades resilientes? E se a erosão costeira não precisasse levar consigo a erosão comunitária? Ao planejar nossas cidades para o projeto de desenvolvimento sustentável em um planeta com mudanças climáticas, precisamos começar com o próprio alicerce da comunidade, com a estrutura socioespacial, da qual elas dependem E para isso, precisamos olhar para os lugares mais inesperados Obrigada

(Aplausos)